A lista de motivos para não amar

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Leia ouvindo Into de Fire – Thirteen Senses

Eu poderia escrever uma introdução longa e cheia de detalhes sobre o fato de estar me enganando com as pessoas mas, sabe, resolvi ser direta hoje. Eu estou, de fato, tentando ancorar meu barco em poças de água que prometem ser oceanos pacíficos e que, perdão pelo trocadilho bem previsível, de tranquilos não possuem nada.

Calma, deixe-me explicar melhor. Talvez ir rápido demais com esse enredo possa omitir partes importantes para seu entendimento, perdão. A questão é que tenho percebido uma tendência em mim que tem me assustado; a de que não estou conseguindo enxergar com clareza a energia real de algumas pessoas que passam pelo meu caminho.

Voltando um pouco mais a fita, eu poderia dizer que deixei de acreditar que o amor foi feito para mim faz um tempo. Uma sucessão de namoros falhos. Doses e mais doses de lágrimas suprimidas para não preocupar quem não aguentava mais ter que segurar minha mão e dizer “ei, vai ficar tudo bem dessa vez”. Talvez essa coisa de felizes para sempre não seja mesmo para mulheres como eu.

Decidi então que apenas aceitaria companhias com prazo de validade bem definidos. Pessoas divertidas, interessantes, donas de beijos de cinema mas que, sem problema algum, poderiam ir e vir e transitar pelos meus caminhos sem que precisassem necessariamente aterrizar voo.

Pois é, mas foi aí que descobri uma coisa: cuidado com o que você determina para si. Quem pensa que a vida não nos dá aquilo que pedimos está redondamente enganado. Enquanto focava em companhias fluidas e passageiras de um avião prestes a ir embora, esqueci de me certificar se essas mesmas companhias mereciam ao menos ter um tíquete de embarque, mesmo que por dias ou horas. E a queda, bem, a queda foi bem maior.

É engraçado como me deixei levar por um sorriso. Bastante engraçado porque, enquanto eu sorria de volta para ele, milhões de desculpas mirabolantes, com certeza, se formavam dentro da cabeça dele. Mas não para mim. Desculpas para sua namorada. E eu ao menos pude supor que entre eu, ele e a paisagem inebriante da praia existiria não o risco de me apaixonar, mas de ser coadjuvante de uma história triste de falta de amor.

Eu poderia rogar pragas ao Universo por, mais uma fucking vez, me enviar alguém que não valia o batom que passei mais cedo para vê-lo. Poderia colocar na minha lista mais um motivo para desacreditar no amor, dentre muitas outras anotadas às pressas em um caderno velho. Eu poderia sentir, e como senti, raiva desse homem, que acreditou ser certo pegar a confiança nele depositada por mim e pela sua companheira e jogar no lixo como o resto de um lanche que ele só comeu porque a lanchonete estava sem fila. Mas não. Eu apenas reconheci ali o meu pedido sendo correspondido pela vida, mais uma vez.

Não adianta. Não adianta mesmo a gente achar que pode fugir do nosso maior destino na Terra: amar e ser amado em retribuição. E, toda vez que fugirmos disso, toda vez que a gente achar que pode fugir da coisa mais grandiosa oferecida a nós – o amor –, a vida vai nos dar uma resposta amarga e verdadeira. Você não quis isso? Então saiba lidar com isso sem reclamar. E, apesar da mensagem enviada a ele, com o print da constatação do ato mais doloroso que existe – a quebra de confiança – eu não pude reclamar com mais ninguém além de mim.

Não tem sido fácil, sabe? Eu sei que provavelmente não tem sido para você também, não sou a única. Mas ainda dói, ainda reverbera em meu íntimo a despedida forçada por telefone que se transformou em um dos piores dias já vividos por mim. E, após isso, a tentativa absurdamente falha de impor ao meu coração um novo amor. Fui rebelde e não quis admitir que precisava mesmo viver esse luto, não tinha jeito. Fui covarde e não quis pegar o primeiro avião com destino a cidade onde vivi os melhores momentos como mulher. Como ser humano. Como eu. Eu não quis pedir para ele ficar. E ele foi.

Por isso, hoje, decidi escrever depois de tanto tempo, na expectativa de que eu consiga encontrar de novo a intuição necessária para enxergar a luz que brilha do outro lado da ponte. Que eu possa ver além do sorriso alheio qualquer mentira e o menor vestígio de verdade. Que eu possa lançar para longe aquele caderno velho contendo instruções de como fugir do amor, porque ele não serve para me deixar segura, mas para me lançar em precipícios fundos e vazios. Em poças d’água que fingem ser mar. E, principalmente, me faz me culpar por ter deixado ele partir. Ele foi mas não levou o amor de mim. O amor por ele talvez ainda pulse no meu coração. Mas o amor, a essência universal de amar, ela está em mim. Está esperando apenas que eu admita e determine, de uma vez por todas, sem pestanejar, o que eu mais quero do fundo de todo o meu eu: ser amada de novo.

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