Seria loucura se não brilhasse!

Foto: Thainara Néis

Há anos não consigo fazer o olho faiscar. É fácil sorrir, só treinar no espelho. Agora, faíscas são naturais, o brilho no olhar não pode ser copiado, planejado. É sempre sentido, encorajado. Eu só fui sentir isso novamente na nossa dança, foi sobrenatural, pois não ouvíamos música, o único som era as quicadas da bola de basquete enquanto jogávamos, e era uma dança de dribles, saltos e arremessos, sorriamos como maníacos e nossos olhares brilhavam.

Ai… Que saudade daquela tarde, foi tão natural, tão mágico. Começamos o dia separados, ainda não nos conhecíamos, fazendo uma coisa que gostamos, comer. Tomado café da manhã, eu fui regar as plantas e ela foi dar ração aos seus animais, um gato, um cachorro e um papagaio. Estávamos em casa, era um sábado e a preguiça que a semana nos rogou só não foi párea para os nossos amores.

O meu era arremessar uma bola atrás da linha de três num clean shot (arremessar e acertar sem tocar em nada). O som em meus ouvidos, da bola tocando a rede naquele famoso “chuá” me faz recuperar o fôlego, me faz sorrir, mas o brilho no olhar… Era só ela.

Até conhece-la era, tão somente, uma chama forte e fria, não era aquela emoção exacerbada e irracional, mas uma obsessão comedida. Ela sabia jogar e não era maluca que nem eu. O amor dela é pedalar, ela encontrou nisso uma liberdade fundamental, algo que de uma maneira simples mudou sua vida para sempre, porque a cada quilometro rodado, fez perceber a sua própria força de vontade, o seu poder e sua capacidade de superar barreiras e fronteiras. Então lá foi ela, às 14 horas, pegou sua bike e começou a pedalar num dia lindo, de céu azul e exatos 37° graus. Louca né? Pelo menos, ela diria, conseguia pegar algum vento na cara.

Eu, totalmente insano, fui para a quadra aqui na nossa cidade e não havia ninguém, claro que não, só loucos fariam isso. Comecei a treinar, arremessar e tudo o mais, como num passe de mágica, passei o olhar para minha direita e meio segundo depois ela passou, meu coração deu uma acelerada básica, mas achava que era meu físico mal condicionado, ela como uma boa ciclista não virou para olhar. Mas para sair da rua da quadra no entanto, ela deveria fazer a volta no local por trás da quadra, quando voltei para minha sessão de arremessos, ela então passa na frente e olha pra mim e passa reto.

O tempo passou, 14 virou 18 e no verão, o sol se fazia presente, porém obviamente mais fraco. E lá estava eu, arremessando ainda, e ainda sozinho. Preferia assim. E ela dando outra volta por lá. A menina arregala os olhos e vê 10 garrafas de água atrás da tabela e para de pedalar. A loucura dela pareceu menos louca perto da minha insanidade, ela entra na quadra e estaciona sua bike e vem falar comigo, depois ela admitiu que foi muito por impulso, porque ela é extremamente tímida. Ela pergunta qual meu objetivo de jogar basquete sozinho nesse tempo e por tanto tempo, e eu digo: “Melhorar”. E eu perguntei: “E a bike? Vi você pedalando desde as 14.” Ela ficou vermelha, ainda mais depois de todo o cansaço e esforço, ela respondeu baixinho: “Você não entenderia.”

Eu pedi pra ela falar mais alto e ela quase grita: “Porque eu gosto.” Eu ri e ela ficou sem jeito e perguntou qual é a graça e eu disse que estava feliz pois eu não era o único louco. Ela sorri, pega a última garrafa de água, toma, pede a bola e me chamou pra um mano-a-mano. Então começou a dança insana, ela é rápida, a força em suas pernas era incrível e a agilidade, fantástica, não olhávamos pra bola, porém sabíamos onde ela estava todo o tempo, enquanto trocávamos dribles nossos olhares se cruzavam, e ela ao encarar alguém arregala os olhos e ficou muito nítido, suas faíscas carmesins em seus pares esmeraldas, e eu senti que naquele minuto, naquele segundo, pra nenhum de nós, nada além da bola em quadra e da tabela à nossa frente, importava. Era um tipo diferente de liberdade, mas igualmente incrível.

A dança varia de ritmo, mas nunca diminui, de rápido a ultrarrápido e chegou um ponto que o quique da bola só perdia para as batidas dos nossos corações e o mais impressionante, é que dentro desses 3 minutos, ninguém conseguiu pôr a bola pra dentro, queríamos que esse momento durasse para sempre, mas ele teria que terminar e o começo do fim começou comigo roubando a bola de seus domínios. E parto pra cesta, ela corre para debaixo da tabela, bloqueia a passagem e pulamos com tudo e gritamos ao mesmo tempo, estou para enterrar mas seu pulo foi tão forte e alto que sua palma impacta a bola e perduramos em volta de 0.75 segundos no ar, ambos com sorrisos malucos e olhares faiscantes incandescentes beirando a insanidade.

No fim perdi o ponto, mas ganhei outra coisa. Algo que não pode ser computado, comprado ou treinado.

Ganhei as faíscas que tanto queria.

 

 

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