Extraordinário: impressões e comentários sobre o filme

* Atenção: se você não assistiu ao filme ainda, esse texto contém alto teor de spoilers.

A espera foi grande! Finalmente Extraordinário invadiu os cinemas e fez muitos telespectadores saírem das salas com os olhos inchados e já conquistou o primeiro lugar das bilheterias de todo Brasil desde sua estreia no dia 7. Extraordinário é, sem dúvidas, uma história que emociona e marca em qualquer uma de suas versões. Acredito que tanto no livro como no filme conseguimos tirar lições pra toda vida.

Depois de enxugar minhas lágrimas, respirar fundo e me desvincular um pouco de toda emoção envolvida na trama, tenho algumas observações sobre a adaptação da obra da R.J. Palácio. (Aliás, se você ainda não leu minha resenha sobre o livro, é só clicar aqui )

Assistir a versão cinematográfica de um livro, principalmente um que eu goste e me identifique muito, me causa sensações dúbias. Fico feliz por saber que aquela história alcançará ainda mais pessoas que não tiveram oportunidade de ler a obra (ou simplesmente não tem esse hábito). Também sei que isso significa um grande reconhecimento para a autora. Afinal, ninguém investiria em um filme de um livro que não tem o menor apelo popular ou enredo relevante, né?

Mas ao mesmo tempo fico apreensiva de ir ao cinema e ver algo que fuja à essência do que eu li, que ao invés de homenagear e expandir, diminua a qualidade da obra de alguma forma. Veja bem, não sou do tipo de pessoa pseudo cult que acha o livro sempre é melhor que o filme e blablá. Já tive ótimas experiências com alguns filmes a ponto de afirmar que gostei mais de assistir do que ler. As vantagens de ser invisível (que inclusive é do mesmo diretor de Extraordinário) e Outro lado da vida, são dois exemplos disso.

Então, assistir a um filme baseado em alguma obra é, antes de tudo, um exercício de desprendimento. É preciso enfatizar a palavra “baseado”, ou seja, entender que o livro é um ponto de partida, uma inspiração para aquele roteiro.  São mídias diferentes e cada uma delas tem suas especificidades e estratégias para contar e explorar a história.

No geral, o filme é lindíssimo e justifica todas as lágrimas e risadas do público. O elenco merece total destaque! Não consigo imaginar outros atores para cada um dos papéis. Foram todos feitos para os seus respectivos personagens. Tanto os veteranos Julia Roberts, Owen Wilson, Mandy Patinkin e até a brasileira Sônia Braga, como todo o elenco mirim estão incríveis! Esse elenco de peso com certeza levantou o filme e o enriqueceu ainda mais.

Dito isso, e não tirando de forma nenhuma o mérito do super diretor Stephen Chbosky, na minha opinião, o filme comete algumas falhas que poderiam ter sido facilmente corrigidas sem interferir muito no tempo de duração de filme e etc. A primeira é omitir totalmente a necessidade de Auggie usar aparelho auditivo, e a vitória que é quando ele consegue superar isso – já que umas das partes do rosto que ele tem mais dificuldade de aceitar são suas orelhas, além do preço do aparelho que é altíssimo.  Tá, mas o que isso faz diferença?

Durante a cena de confronto no acampamento – que no livro acontece durante a noite e dá bem mais dramaticidade para o fato -, Auggie perde seu recém comprado aparelho auditivo e mais tarde a escola responsável pelos agressores ressarcem o valor à família de Auggie, mostrando mais uma vez que atitudes como essa não podem ser toleradas. Sei bem que não dá para colocar tudo que está no livro em seus mínimos detalhes, mas essa cena é um dos pontos altos da história.

O que alteraria a cena acontecer durante a noite? Além do cinema ao ar livre narrado no livro permitir que a “fuga” dos meninos fosse menos notada (afinal qualquer professor poderia ter visto eles saindo ali daquela salinha como é retratado no filme), os dois amigos perdidos na “floresta” a noite deixa a cena inteira muito mais tensa. E são alterações totalmente cabíveis no roteiro, por isso não entendi a escolha do diretor em alterar isso.

Outro ponto que o filme me decepcionou bastante foi a relação da cachorrinha Daisy com Auggie e a família. No livro essa relação é beeeem mais explorada, e acredito que isso enriqueceria demais o filme em vários momentos e aspectos. O tornaria ainda mais sensível do que já é. A morte dela no livro foi um dos momentos que eu mais chorei, já no filme não consegui sentir nada perto do mesmo impacto.

Outra cena que teria ficado hilária no filme e infelizmente não foi pro ar, seria a de Justin, namorado de Via, fingindo que seu violino é uma metralhadora (como Auggie sugeriu no dia que se conheceram) e assustando os pequenos vilões da história para deixarem o pequeno cunhado em paz. Aliás, durante a cena que o Justin vai pela primeira vez na casa dos Pullman, Isabel faz a única menção durante todo o filme da relação da família com o Brasil, quando afirma que o prato preferido de Nate é feijoada.

Mesmo com todos esses detalhes que me incomodaram e na minha opinião deixaram a desejar, vale muito a pena separar seu lencinho e assistir ao filme (eu mesma assistiria outras vezes). Vale muito a pena também, depois de virar a última página ou dos créditos finais subirem, praticar todas as lições de gentileza, empatia e amor incondicional que a história do pequeno grande extraordinário nos traz. “Todo mundo deveria ser aplaudido de pé pelo menos uma vez na vida” e eu aplaudo de pé essa história simples e encorajadora ao mesmo tempo.

 

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