Um conto de Natal – Parte I

Leia ao som de Christmas Wrapping – The Waitresses

Véspera de Natal, 1987. Duda tinha 17 anos. Apesar de nova, ela já sabia muito bem como funcionava todos os natais na família Nogueira: troca de presentes caros entre parentes que não faziam questão de se falar ao longo de todo o ano, mas se esforçavam para demonstrar se importar nas festas familiares, como forma de recompensa (ou de ostentação). Ceia farta que quase sempre sobrava e ia parar na lata do lixo ao final da noite. Muito blá blá blá sobre coisas desnecessárias e primos chatos dando em cima das primas como se aquilo fosse aceitável. Seria, se elas ao menos quisessem isso.

Seria assim em todos os próximos natais da minha vida? Pensou a menina dos cabelos crespos cor da noite e dos olhos de jabuticaba. Quanto mais Duda pensava sobre isso, mais desanimador parecia ser sair para comprar a roupa nova para aquela noite, com sua melhor amiga, Julieta.

Vamos Duda, não tenho o dia todo! Preciso passar na padaria às 16h para buscar as rabanadas que a tia Joana encomendou, se não minha mãe me mata!

Ok, Julieta tinha razão. Eu deixei para fazer compras muito em cima da hora – pensou Duda, revirando os olhos ao pensar que aquela roupa só veria mesmo a cor do papel de parede da sala da sua casa.

Os Nogueira tinham uma tradição: todos deveriam usar roupas em tons de vermelho, verde ou dourado durante a ceia de Natal. Segundo Duda, ela era a única representante da família que ainda possuía algum senso de moda e, para ela, essa tradição só tornava a festa mais massacrante ainda do que já seria usando roupas normais. – Não estamos na América mãe! – Gritava ela do quarto. – Estamos sim, América do Sul querida! Não estrague a tradição, foi sua avó que inventou isso!

Duda acabou comprando um vestido curto de cetim verde claro que achou em promoção em uma lojinha com letreiro luminoso escrito “Rosa Choque” e concluiu que seria irreverente usá-lo com seu All Star vermelho. Se era para entrar no espírito de Natal, que pelo menos fosse quebrando a expectativa de sua mãe: qualquer roupa da tradicional “Moças & Moços” e um salto de verniz preto. – Salto? JAMAIS! – pensava Duda toda vez que essa sugestão era apresentada esperançosamente.

Ao descer do ônibus, já na sua rua, a menina mais atrasada do mundo saiu correndo com sua sacola de compras para casa. Já eram 17h e às 19h a família começaria a chegar. Duda ainda não havia nem lavado a louça do almoço, como pediu seu pai. – Todos temos que colaborar, mocinha! Eu já lavei o banheiro e sua mãe e sua madrinha estão terminando de assar o peru. – Duda estava encrencada!

E foi pensando na bronca que o seu Tunico iria dar que Duda atravessou a rua sem olhar para o lado. Nesse momento vinha em sua direção um rapaz em cima de um skate e com fones de ouvido. Se aquilo fosse uma cena de algum filme, toda a coisa teria rolado em câmera lenta. Duda só teve tempo de gritar “caramba” e o skatista foi com tudo em cima dela. Os dois se chocaram tão forte que os fones do rapaz foram parar dentro da banca de jornal, na esquina.

Cara, eu morri e o céu não é uma loja de discos. Eu sabia!

Duda abriu os olhos. Meio confusa, ela conseguia lembrar que alguma coisa envolvendo um cara de skate e sua sacola da “Rosa Choque” voando tinha acontecido. Ela sempre achou que toda pessoa poderia escolher para que tipo de céu iria quando morresse. Ela tinha deixado bem claro, uma vez, orando antes de dormir, que gostaria que o seu céu fosse uma grande loja de discos, com vários departamentos e promoções infinitas. Mas, ao contrário da sua expectativa, se ela realmente estivesse no paraíso, este era uma lanchonete antiga, com bancos de couro vermelho e garçonetes vestindo saias azul bebê.

Oi baby!

De repente, levantou de um dos bancos um garoto que devia ser uns três anos mais velho que ela. Calça meio justa amarela, camisa branca e uma jaqueta com emblema de alguma escola. Cabelo estilo black power e um sorriso de ator de Hollywood. Duda olhou com curiosidade para ele e perguntou: – Você é Deus?

Aguarde a segunda parte, em breve no blog!

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