Um conto de Natal – Parte III

(Leia a Parte I e a Parte II)

Leia ao som de Have Yourself a Merry Christmas, de Michael Bublé

– Beatriz você MORREU?

Duda ficou atônita. Se Júlio era o fantasma do Natal passado e estava morto (porque afinal para ser fantasma esse é o requisito básico), teria então a secretária do seu pai morrido? Mas ela era tão legal… Toda vez que Duda ia visitar o pai no escritório, quando era uma garotinha, Beatriz separava canetinhas e papéis e deixava ela rabiscar durante a tarde toda em sua mesa.

– Não! Estou “vivinha da Silva”!

– Mas, mas como? Digo, se Júlio…

– Minha querida, eu também não sei bem, mas de repente fui enviada para esse lugar com uma missão. Mas, primeiro, vem cá me dar um abraço bem apertado. Você está tão linda! Quanto tempo não te vejo pessoalmente. Só reconheci que era você porque seu pai sempre mostra fotos suas para toda a firma. Aquele homem te ama tanto!

Beatriz abraçou Duda bem apertado. Uma sensação gostosa invadiu a menina, uma mistura de frio, abraço quentinho e saudade da infância.

– Mas, Beatriz, que lição você veio me dar? E porque estou passando por essas coisas? Não entendo. Só consigo me lembrar que me choquei com um skatista e fui parar em uma lanchonete antiga. E agora estou aqui!

– Senta aqui minha querida. Vou te mostrar uma coisa.

Duda sentou na mesa que ela tanto adorava desenhar. Beatriz então ligou a televisão que ficava em cima de uma prateleira de madeira, para os clientes assistirem enquanto aguardavam sua vez de serem recebidos.

– Preste atenção no que você vai assistir agora Duda.

Na tela Duda pode assistir o seu pai em um dia normal de trabalho.

– Tunico, já está tarde, vá para casa, eu cuido das papeladas finais!

– Beatriz, obrigado, mas não. Tem muita coisa a ser feita! Preciso fechar esse balancete e…

Beatriz interrompeu Tunico: – Mas amanhã é véspera de Natal! Vá para casa ficar com sua família. Eu termino aqui, sem problemas. Todo ano você libera os funcionários cedo dia 23 e assume todo o trabalho final. Está na hora de curtir um pouquinho mais, não acha?

– Ah Beatriz, seria ótimo! Muito obrigado. Mas, sabe? Sinto tanta falta dos velhos tempos! Duda pequena me ajudando a montar a árvore de Natal. A família reunida para prestigiar essa data tão especial com dona Julieta. Desde que ela se foi, aos poucos os familiares têm se afastado. E Duda… bem, Duda já está uma moça, acho que nem liga mais para isso.

Seu Tunico sentou em sua cadeira, passou a mão em seus poucos cabelos, e sorriu.

– Ah Beatriz, essas crianças crescem e não precisam mais da gente, não é?

Beatriz pegou uma xícara de café quentinho, deixou na mesa dele e sorriu de volta.

– Tunico, você é um bom pai. Essa é só uma fase, Duda logo vai perceber que estar em família é tudo o que importa. Veja você, trabalha tanto para dar o melhor para sua família! E ainda ajuda os órfãos daquele orfanato pequenino na Rua 47. Você é um exemplo! Vá meu amigo, vá para casa. Grandes surpresas sempre nos aguardam no Natal!

Duda assistia às cenas como se estivesse vendo um seriado na TV. Enquanto a menina refletia sobre o que seu pai disse, a cena mudou. Seu Tunico estava em um pátio, com umas vinte crianças de diversas idades, vestido de Papai Noel!

– Ho, ho, ho! Feliz Natal minhas criancinhas! Cheguem mais perto, trago presentes para todas vocês!

Duda queria chorar, mas ficou emocionada demais até para isso. Seu pai, fazendo trabalho voluntário em um orfanato? Mais uma vez ela não acreditou no que via. Seu pai, um homem tão ocupado, sempre pensando em trabalho!

– Duda, você está bem meu amor?, perguntou Beatriz, passando a mão carinhosamente nos cabelos da menina.

– Estou… Ah Beatriz! Que coisa linda…Como eu não sabia sobre isso? Como deixei que meu pai achasse que eu não preciso mais dele? Ele é o meu melhor amigo! Ele é o meu herói!

Duda abraçou Beatriz e as lágrimas rolaram em seu rostinho.

– Princesa, posso te chamar assim? Para mim sempre será minha princesinha! Te conheço desde neném. Sua mãe, minha grande amiga, trazia você aqui sempre. Era a alegria do escritório! Sempre há tempo, meu bem, para demonstrar amor. Seu pai é um homem muito ocupado porque deseja que nada lhe falte, mas ele te ama muito!

Duda abraçou Beatriz bem forte novamente.

– Minha menina, agora eu preciso ir. Eu fui nomeada, apenas por hoje, para ser o Fantasma do Natal Presente. Trouxe para você o segundo ensinamento. Acredito que tenha aprendido, não é? Seja mais presente na vida dos que te amam!

E, como em um passe de mágica, tudo ficou escuro. Duda foi então remetida a um apartamento bonito de dois quartos. Mas, o que ela viu lá, estremeceu todo o seu corpo. Uma menina de uns 7 anos a aguardava, com um sorriso maravilhoso de boas vindas e um ursinho de pelúcia nas mãos que Duda jurava ter sido seu.

– Olá mamãe! Como você demorou!

 

A última parte você pode conferir amanhã, véspera de Natal! Até lá!

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