Um conto de Natal – Parte Final

(Leia a Parte I, Parte II e Parte III)

– Perdão, mas acho que você está me confundindo. Eu não, eu não poderia…

– Vamos, você se atrasou demais! Precisamos chegar a tempo!

A garotinha puxou Duda pelas mãos e juntas, mais uma vez, desapareceram e reapareceram em outro lugar. Duda não conseguia imaginar o que teria causado tantas reações alucinógenas nela. Ou seria um daqueles sonhos estranhos em que parece que estamos mesmo acordados? Ou seria o céu e seus habitantes estranhos, talvez anjos? Enquanto a garota dos All Stars vermelhos pensava a respeito, Mariana falou:

– Mãe, aqui é um lugar muito especial para você.

– Olha eu sou Duda, estava indo para casa ajudar meus pais para a ceia de Natal e de repente vim parar aqui. Não tem como eu ser sua mãe, eu nem tenho namorado! E esse lugar… Bem, eu nunca vim a esse lugar antes!

– Esse é o pátio do Orfanato da Rua 37, o mesmo que o meu avô Tunico fazia trabalhos voluntários. Beatriz não te mostrou?

– Ah, é verdade! Mas ele está um pouco diferente e… Por qual motivo estou aqui?

Mariana, a pequena menina de cabelos curtinhos, óculos de grau amarelo e vestido vermelho com lantejoulas da mesma cor, sorriu e segurou a mão de Duda.

– Mãe, foi aqui que você me conheceu!

De repente, uma moça que devia ter seus 26 anos, adentra o pátio do orfanato e encontra com uma linda menina de 4 anos. Ela a abraça e é acompanhada por uma senhora até a porta. Lá está um rapaz bonito e sorridente, com um urso de pelúcia maior que a garotinha amarrado em uma fita cor-de-rosa. A cena fez o coração de Duda bater duas vezes mais rápido. Aquele rapaz, aquela menina… Aquela moça não seria…

– Você. Aquela moça é você mamãe. Aquele com o urso é o meu pai, seu marido. Aliás, companheiro, como você sempre preferiu chamá-lo. Dizia que marido era uma palavra meio brega.

Mariana deu uma gargalhada de criança que faz qualquer dia cinza virar arco-íris.

– Mas, mas como…

Duda mais uma vez chorou. Como seria possível ela estar assistindo a uma cena que ainda nem tinha acontecido! Ela não sabia explicar, mas sentiu um amor maior do mundo invadir o seu peito. Foi tão forte que ela precisou sentar no banco ao seu lado, e Mariana sentou junto, com seu ursinho de pelúcia velho e muito simpático.

– Mamãe, eu sou o Fantasma do Natal Futuro. Vim em uma missão muito especial! Preciso te ensinar uma importante lição. Mas espera aí, qual era mesmo… Ah, lembrei! – disse a menina sorrindo – Preciso que você acredite na magia do Natal! Uma energia poderosa e muito bonita, vinda do Alto, que envolve todo o planeta durante essa data! Essa magia, força, como você queira chamar mamãe, ela transforma as pessoas. Você, pouco a pouco, está deixando de acreditar nela! Isso é mal mamãe, muito mal!

Duda escutava atentamente tudo o que a pequena Mariana explicava. Tão pequena mas tão inteligente! E ela continuou:

– Assim como o Natal ficou marcado como a melhor data da vida da minha bisa Juliana, também ficará marcado para você e para mim. Mãe, por favor, acredite nessa magia! Se ela morrer dentro de você, o futuro que te mostrei hoje ele…

Mariana abaixou a cabeça triste e falou bem baixinho, como se não pudesse ser correto pronunciar aquelas palavras.

– Não existirá. Por favor mamãe, aprenda essa última lição, por favor mamãe, por favor…

Enquanto a menininha pedia para Duda acreditar no poder do amor que envolve o Natal, Duda sentiu seus pés saírem do chão e, de repente, ela abriu os olhos.

– Ai! Que dor de cabeça…

Ao seu redor, vários Nogueiras vestidos em suas roupas vermelhas, verdes e douradas cochichavam. O primeiro deles a ver Duda acordar no quarto do hospital foi seu pai.

– Minha querida, que bom que acordou! Nossa, que susto você nos deu!

– Pai, onde estou? Você é alguma espécie de fantasma do passado, futuro ou…

Seu Tunico deu risada: – Filha, como assim fantasma? Você colidiu com um garoto que vinha de skate e desmaiou. O Seu Geraldo da banca de revistas te viu e foi me chamar. Trouxemos você para cá, mas está tudo bem. Seus exames não deram nada.

Aos poucos os tagarelas Nogueiras foram, um a um, aproximando-se da cama onde Duda estava deitada. Todos sorriam aliviados. Sua mãe deu um beijo em sua testa. Até os primos chatos estavam lá, dessa vez comportados.

– Filha, todos vieram até você, já que não poderia ser liberada a tempo para a ceia de Natal. Os médicos relutaram mas deixaram todos entrarem. Não vamos poder ficar muito tempo, mas o Natal sem um de nós não seria o mesmo, não é?

Duda estava radiante e um pouco aliviada. Aqueles sonhos estranhos com fantasmas tinham finalmente acabado. Talvez tivessem sido efeito da pancada na cabeça. E, ao passo que a garota dos olhos de jabuticaba observava e conversava alegremente com todos da sua família, um menino alto, cabelos parecidos com o do Seu Tunico – na época de sua juventude, claro, agora ele não tinha mais tanto cabelo assim-, chegou perto da cama de Duda e disse:

– Oi. Eu sou Bruno, não nos conhecemos. Sou amigo do seu primo Joaquim, ele me convidou para passar o Natal com ele porque meus pais viajaram a trabalho. Você está bem? Eu soube do skatista. Que baita tombo!

Bruno falou muitas coisas as quais Duda não conseguiu prestar atenção. Seus olhos se encheram d’água. Aquele amor que invadiu seu peito no orfanato, ele novamente apareceu queimando tudo por dentro, como um grande incêndio de felicidade. Tudo aquilo que ela viveu, as lições, Mariana… Então nada disso foi mentira e…

– Duda, você está bem? Está sentindo alguma coisa?

– Estou Bruno. Sinto que à partir de hoje, todos os Natais serão incríveis pra mim. Você não?

Bruno sorriu, sem muito entender aquela garota engraçada e sem dúvidas a mais linda que ele já tinha visto. Linda, com alguma coisa de forte e diferente. Daquelas garotas que um rapaz jamais poderia deixar escapar.

– FELIZ NATAL!

Leia esse trecho ao som de Amazing Grace, de Elvis Presley

Meia noite e todos os Nogueiras se abraçaram ali, naquele quarto de hospital colorido com suas roupas natalinas. Fizeram todos uma oração, cada um para Quem ou o Que acreditava. Estava então ali, naquele instante, acontecendo. O respeito pela tradição criada com tanto carinho por Dona Juliana. A presença ensinada por Beatriz e, ah… E a inabalável e transformadora magia do Natal!

Esse conto foi livremente inspirado em “A Christmas Carol” ou, como é conhecido no Brasil, “Os fantasmas de Scrooge”, livro de Charles Dickens que ganhou várias versões para cinema e televisão.

Que a magia do Natal esteja sempre presente em seu coração!

Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *