Aquilo que não passa

Texto colaborativo da Minerva Silva, autora do Meus Pequenos Pedaços.

Leia ao som de I would rather go blind

Camisa branca, sapatos escuros e um olhar penetrante. Estava toda insegura com as coisas que você causava em mim, mas mesmo assim achei que seria mais fácil arriscar do que perder a chance de estar contigo. A primeira vez que seus lábios tocaram os meus já não tinha mais controle dos meus pensamentos. Sempre levei absolutamente tudo em rédeas curtas e mantinha a cabeça no lugar. Você apareceu e mostrou que eu só mascarava aquilo que realmente queria. Não consigo explicar quantas vezes nos olhamos naquela noite, mas a meia luz tudo parece melhor.

Cada vez que a nossa vida toma uma direção diferente daquilo que esperamos – seja por uma noite ou pelo resto da nossa existência – podemos receber isso de diferentes maneiras:

a) Aceitar que não somos os donos da verdade e que nossas atitudes – mesmo as mais impulsivas – têm suas consequências, mas por dentro ficar se remoendo,  b) fazer um drama tão grande capaz de afastar todo mundo e também nos tirar da realidade e c) apenas viver um dia de cada vez, deixando que tudo vá para o seu lugar, mas sem querer fazer isso aos berros.

Admito que na grande maioria das vezes eu escolhia a segunda opção. Depois de um tempo a gente percebe que cai e rala feio o corpo – às vezes, até a alma -, mas com o tempo tudo se recupera, as feridas se curam e a vontade de ser diferente a cada dia precisa ficar. Não vale a pena deixar a coragem de levantar se esvair por entre os dedos, como quando tentamos segurar a água nas mãos no banho.

Suas mãos nunca mudaram, o arrepio dos meus braços e o movimento com os ombros denunciava isso. Sua voz tornou-se mais firme. Seus olhos mais tristes, mas não tão tristes ao ponto de me fazer sentir pena. O gosto de café e desejo que senti todas as vezes que seus lábios passeavam pelos meus fez todos os meus sentidos se aguçarem. Não quero saber do amanhã, pois pode ser que eu nem esteja aqui, quero apenas aproveitar o hoje, pensei eu. Mal suspeitava que aquela noite era apenas mais uma das que eu viveria. Mal sabia que viveria algumas outras procurando seus olhos no meio da multidão.

Quero ser livre, mas quero ser amarrada ao pé da tua cama. Duas de mim vivem brigando com todos os teus argumentos e a terceira apenas espera mais um beijo teu. O copo na minha mão já está vazio pela terceira vez, enquanto lembro daquela noite. Meus dedos deslizam pela boca de vidro enquanto observo minhas unhas vermelhas. Meu batom já ficou nos guardanapos e eu só espero que você venha logo.

 

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